Na nona arte, nem sempre
releio os títulos de que gosto. Quer dizer, são quase quarenta anos nessa vida
de gibizeiro e, portanto, muitas memórias afetivas construídas ao longo desse
tempo. Coisas que são, hoje, meus alicerces como leitor, com edições – ou
adições – que fermentaram e ganharam vida própria dentro da cachola. Daí,
reler, às vezes, é como desmistificar ou tirar o véu da beleza e da emoção que
circundam alguns quadrinhos. Cada um tem sua própria história dentro de mim, a
exemplo da minha revista favorita dos Vingadores.
E isso merece um momentum
Anton Ego:
Garoto, voltando do futebol à
noite, dormi na casa do meu melhor amigo. Tinha escola no outro dia. Sem sono,
fui bisbilhotar num armário que estava abarrotado de gibis. O detalhe é que meu
chapa não lia gibis. Pertenciam ao pai dele. Mexi sem parar. Vi vários Heróis
em Ação, Heróis da TV, Superamigos... e um tal de Grandes Heróis Marvel n° 8.
Peguei e li até dormir. O primeiro Sal Buscema a gente nunca esquece. No dia
seguinte, levei vários gibis do pai do meu amigo para casa, incluindo esse GHM.
Ainda o tenho por aqui. Vou relê-lo? Jamais.
Por que eu deveria reler?
Seja lá o que estiver ali dentro, no enrosco enredado por Steve Englehart entre
Vingadores, Defensores, Loki e Dormammu... nada daquilo fará frente à pureza
daquela madrugada de descobertas. Se muito, arrisco folhear e me deliciar com a
passagem mais icônica da HQ e, quiçá, uma das mais viscerais do Universo
Marvel:
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Posto isso, não mantenho o
mesmo primado na sétima arte e digo mais: estou num projeto meio maluco de
rever filmes oitentistas/noventistas que vi no cinema ou em VHS, foram
marcantes, mas pouco revi ou nem revi. E aí, quando consigo assistir, procuro o
n° da saudosa Revista Set em que o então lançamento foi resenhado e
concluo minha viagem no tempo.
Estabelecidas as regras dos
resgates psíquicos, recentemente fiz duas operações de busca & salvamento. A
primeira delas foi Velocidade Máxima (Speed, 1994), o frenético suspense
policial que, ao lado de Caçadores de Emoção (Point Break, 1991), plantou nas
nossas mentes a ideia de que Keanu Reeves daria um ótimo herói. E como
deu. No filme, Jack Traven (Reeves) é um oficial da S.W.A.T. de Los Angeles,
que se vê às voltas com um ex-especialista do esquadrão antibombas (Dennis
Hopper), plantando bombas em locais públicos ante a exigência de uma bolada
milionária para reparar injustiças e as mutilações que sofreu a serviço da
corporação. Um desses locais, na verdade, é um ônibus público, que precisa
ficar o tempo todo a uma velocidade acima de 80 km/h; se o motorista reduzir, boom!
A beleza e a diversão do
filme sobrevivem ao tempo justamente pelo aspecto artesanal das tomadas de Jan
De Bont – diretor de pouquíssimos e irregulares longas, porém um diretor de
fotografia de primeira prateleira –, o que deixa as imagens e toda a ação
atemporais. Se rodado hoje, fatalmente, 90% do que se vê no trânsito caótico e
nas autoestradas (freeways) de LA seriam construtos oriundos de tela verde e
CGI.
E sobre isso, olha só a
bagaceira:
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A Alegria dos Funileiros
(transcrito da Revista Set nº 86)
Quem adorou Velocidade Máxima
foram as oficinas de funilaria. Depois de concluídas as filmagens, o filme de
Jan De Bont deixou 200 carros totalmente destruídos. "Não sei se é um
recorde mundial de veículos destruídos", diz o diretor, "mas não me
lembro de nenhum outro filme que tenha mostrado tantos acidentes."
Boa parte dos US$ 35 milhões
do filme foi gasta nas sequências que mostram o ônibus desgovernado causando
destruição nas rodovias de Los Angeles. Só para a cena do ônibus avançando rumo
a um engarrafamento, a produção teve que alugar 500 carros para lotar a rodovia
– que estava ainda em vias de ser inaugurada. "Foi muito trabalho",
diz De Bont, "mas valeu a pena. Speed não parece um filme de US$ 35
milhões, mas sim de US$ 100 milhões".
No total, a produção usou
cerca de 700 carros durante as filmagens. O ônibus em que Keanu Reeves e Sandra
Bullock passam a maior parte do filme não era um só, mas onze. "À medida
que ele ia sendo destruído, nós o substituíamos", diz o diretor. A
utilização de tantos ônibus acabou gerando um grosseiro erro de continuidade:
um dos ônibus tem uma placa do lado esquerdo, com um desenho de uma zebra. Às
vezes, a placa misteriosamente "some" do ônibus e reaparece momentos
depois. "Nem percebi", diz De Bont. "Também, tinha tanta coisa
em que pensar."
A equipe técnica teve que
construir um ônibus especial para as filmagens, com um volante falso que era
dirigido por Sandra Bullock, enquanto alguns metros à frente um dublê guiava o
ônibus. Entre Sandra e o dublê, num espaço de dois metros, Jan De Bont instalou
quatro câmeras que, filmando Sandra de frente, davam a impressão de que era ela
quem estava dirigindo o ônibus. "As curvas que o ônibus faz com Sandra ao
volante são verdadeiras", garante De Bont. "Foi desesperador",
resume a atriz.
A.B.
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E só mais essa: o desfecho de
Velocidade Máxima acontece numa estação de metrô; o grande filme seguinte de
Keanu Reeves, Matrix (1999), também atingiria sua apoteose numa locação similar. Pensando em retrospectiva, não duvido que a passagem de Neo preso num
looping ferroviário em Revolutions seja uma espécie de piada interna das Wachowski
com Reeves. Será? Gosto de pensar que sim.
***
A segunda operação de busca
& salvamento foi com Coração Satânico (Angel Heart, 1987). Tenho
quase certeza de que foi a minha primeira reprise do filme. Em termos de plot
twist, é o "Sexto Sentido" dos anos 1980, com um final inesquecível,
não importa há quanto tempo se tenha assistido a trama detetivesca, ambientada
em 1955, com toques de Raymond Chandler. Harry Angel (Mickey Rourke) é
contratado por Louis Cyphre (Robert De Niro), um homem de negócios que
deseja localizar o paradeiro de um cantor desmemoriado que tem uma grande
dívida, da qual é o seu credor. Entremeada por satanismo, magia negra e vodu, a
investigação parte de Nova Iorque e se desdobra nas noites de jazz da
Louisiana. O grande destaque, porém, fica por conta das interações entre Harry
e o misterioso empregador, um tipo formal, engravatado, de olhar inquietante,
que parece sempre à espreita no canto do olho.
Coração Satânico é o filme
que estampa a capa da edição de estreia da Revista Set, trazendo consigo um
review com excertos de falas do diretor Alan Parker e uma entrevista bastante
reveladora de Rourke, que, inclusive, dá outra conotação ao clima dessa
cena-chave:
Angel: "Não."
Cyphre: "Você quer um
ovo?"
Angel: "Não... Sabe, as
galinhas..."
De Niro, impaciente, então
morde o ovo, o que significa tomar posse da alma de alguém. Daí, de comum
acordo, De Niro e Parker terminaram filmando cinquenta closes diferentes de De
Niro mordendo um ovo duro...
A cena transparece um visível
incômodo do detetive frente a seu contratante, ressoando um certo desprezo do
aristocrata com quem está abaixo dele. O que eu não contava é que essa
impressão extravasou às câmeras:
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SET: Quem vê Coração Satânico sai
fascinado pelas cenas em que você se defronta com Robert De Niro...
Rourke: Ah, no início foi a
guerra! A gente se conhecia de vista, por ter se cruzado em restaurantes e ter
trocado amenidades... Em Coração Satânico, nosso encontro aconteceu numa bela manhã
no Harlem, no cenário de nossa primeira cena juntos. Nessa cena, eu entro – ele
está sentado –, aperto a mão dele, sento à sua frente e o diálogo começa...
Ensaiamos duas, três vezes, sem nenhum problema, e então decidimos rodá-la.
Parker diz “Ação!”. Eu entro, De Niro estende a mão, aperta a minha... e não
larga mais! Ficamos assim, olhando um para o outro, até eu recuperar minha
mão... A guerra havia começado.
SET: A guerra durou muito
tempo?
Rourke: Não... Mas mesmo
assim cada um controlava o outro, querendo ser o melhor... É normal.
Contracenar com De Niro me esgotou – ele é tão concentrado, continuamente, que
deixa o ambiente da filmagem mais tenso. Eu me sinto melhor quando tudo à minha
volta é mais cool. De Niro fica no espírito da cena o tempo todo, desde o
primeiro segundo da primeira cena. Se você não quiser se perder, é preciso
colocar-se no nível dele, constantemente. Assim, quando ele improvisa, quando
ele recomeça, quando ele inverte o texto, você sincroniza na hora, sem ficar
para trás... Quando chegava a noite, depois de trabalharmos juntos, eu me
sentia completamente vazio, esgotado.
SET: Mesmo assim, deve ter
sido um belo encontro...
Rourke: Sim e não. Eu
aguardava este encontro com impaciência, antes das filmagens. Eu pensava que um
monte de coisas ia acontecer. De fato, os papéis nos condicionavam a um certo
tipo de relacionamento: medir forças. Foi um encontro, nada mais. Não
desenvolvemos nenhuma relação de companheirismo porque os personagens nos
impediam de sentir um nível de igualdade.
Depois, não é do feitio de De
Niro ficar fuçando no set, como eu, entre duas cenas, coisa e tal. Acho que na
cena em que o encontro na igreja, inverti a relação de forças a meu favor
(risos)... Mas também é verdade que um parceiro desses ajuda o seu papel. Estou
satisfeito com o meu desempenho na cena final – acho que aí atingimos um bom
nível.
***
Quer
dizer, de acordo com o relato de Rourke, subentende-se que De Niro,
propositalmente, forçou a amizade no método justamente para colher os frutos de
uma boa construção e representação dos dois personagens – ainda que o próprio
intérprete de Harry Angel não pareça ter se dado conta disso e levado um pouco
as coisas pro pessoal. Como fã inveterado de Hellblazer, especialmente da passagem de Garth Ennis e Steve Dillon no título, vejo claramente uma paródia dessa dinâmica, com John/Harry colocando Satã/Louis no seu devido lugar.
Acho relevante mencionar que o dueto endiabrado aí nem tinha uma diferença de idade considerável – De Niro com 43 e Rourke com 34 –, mas estavam, visivelmente, em outra vibração.
Um brinde de gemada aos dois.
***
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