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sábado, 31 de outubro de 2026

UMA JUSTA SEDE POR BONS GIBIS

O atual Twitter, nunca “X”, é uma zona, mas ainda é possível descobrir coisas interessantes por lá. Uma delas foi descobrir que o perfil de André Lima Araújo, um nome que passaria tranquilamente pelo de um brasileiro, e o qual eu já seguia há um tempinho, na realidade pertencia a um lusitano, de Ponte de Lima – conhecida como a vila mais antiga e, provavelmente, mais linda de Portugal. Seus esboços, compartilhados na rede, sempre me chamavam a atenção por lembrar o detalhismo visceral de um Geof Darrow (Hard Boiled), porém, foi só quando li Uma Justa Sede por Vingança (A Righteous Thirst For Vengeance, Image/2021) e que fiquei realmente impactado com a narrativa de Araújo: havia ali a cinética explosiva de um Hiroya Oku (Gantz) e a contemplação do mundano, à moda slice of life, de um Jiro Taniguchi (O Gourmet Solitário).

Fruto da colaboração com Rick Remender, uma máquina azeitada de produzir gibis autorais, a dupla também esclarece que se conheceu via Twitter e estendeu a parceria para outro projeto, The Sacrificers, que ainda preciso ler. Falando especificamente de Remender, do que li dele, tenho boas recordações, inclusive do período mais comercial na Marvel, como o prazer culposo Franken-Castle e a elogiada Fabulosa X-Force; da extensa bibliografia de indies, desponta Deadly Class, com Wes Craig, entre as minhas preferências; sobretudo por conta do elemento autobiográfico, como expiação de uma juventude problemática fruto de abusos mil, alguns deles, parentais, o inspirando a escrever Escape, com Daniel Acuña.[1]

Não obstante, até onde sei, Remender não tira de Uma Justa Sede por Vingança alguma anedota de sua vida pessoal, o que, vamos combinar, seria preocupante se tirasse. Também estanca sua verborragia usual, rica em monólogos internos densos, em prol do storytelling silencioso de Araújo, com diálogos mínimos dispostos numa quantidade privilegiada de ângulos e tomadas. Quase um projeto arquitetônico em forma de gibi, haja vista a profissão anterior do desenhista, que é arquiteto de formação. No enredo, ambientado inicialmente em Vancouver, temos Sonny Wen, um investigador de seguros – a cara do ator Benedict Wong – que topa com o anúncio para um assassino profissional na dark web e que, confrontado com a proposta, decide assumir a identidade do matador e evitar que a morte encomendada aconteça.

Só que, quando Wen chega ao local, ele descobre que não foi o único assassino a ser chamado e ingressa numa jornada com requintes de Onde os Fracos Não têm Vez e Estrada para Perdição, em que será caçado e viverá uma paternidade involuntária. Sem explicar muito, as onze edições vão dando conta de uma figura antagônica desprezível, quase um híbrido de Trump e Epstein, um tipo que certamente teria saído dos quadrinhos mais tresloucados de Garth Ennis. E quando não é isso, paradoxalmente, as páginas de Uma Justa Sede por Vingança são permeadas por passagens bucólicas, com rotinas da vida cotidiana, como pegar um ônibus, comprar camarão na feirinha ou visitar os seus entes queridos... isso até que a violência irrompa de forma repentina e tudo vá para o inferno... o inferno na Terra.

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Off-topic, mas nem tanto...

John Siuntress é uma figuraça na cena dos quadrinhos norte-americanos, uma vez que seu podcast, Word Balloon, provavelmente é um dos pioneiros nesse nicho, estando por aí desde 2005. Antes disso, ou paralelo a isso, vai saber, ele já era um repórter experiente da CBS Radio Chicago, o que dá a exata noção do bom traquejo na mídia e da interlocução com vários expoentes da indústria, seja das majores, seja da cena independente. A maior parte do acervo é em áudio, mas, de um tempo para cá, Siuntress tem disponibilizado os programas em vídeo, no YouTube – por sinal, algo maravilhoso, já que, atualmente, dá para assistir aos papos com legendas em português BR. Uma diversão involuntária é notar que Siuntress, uma cria do rádio, pouco se importa com a qualidade das imagens, inclusive da própria, que parece ser gravada com uma Tekpix e numa tela verde de quinta categoria.

De todo modo, no último dia 5 de setembro, Remender foi o entrevistado da vez, objetivando a divulgação de Hammerfist, nova série com a colaboração inédita de Steve Epting (Velvet); segundo o escritor, Cães de Aluguel encontra Evil Dead II. O que é uma analogia válida, visto que o protagonista, Mike Denton, parece mesmo ter saído do filme de estreia de Quentin Tarantino e ser um daqueles ladrões com alcunhas de “Senhor alguma cor”, que em algum momento se depara com uma força arcana irresistível. Denton, na realidade, é um jagunço que mata gente por qualquer trocado, desde que isso compre a próxima dose de crack e a brisa lhe leve para longe dos deveres e responsabilidades com a filha. Tudo mudaria se o belo butim prometido num assalto a banco de que participaria fosse mesmo pago; algo que, como veremos, era um embuste para reunir algumas buchas de canhão e acessar uma enigmática manopla de poder. O detalhe é que, diferente dos outros comparsas, Denton sobrevive e fica com o objeto, imaginando se aquilo renderá uma boa grana. 

Para além disso, Siuntress cava uma longa discussão sobre a fidelização do público com a sua produção autoral; a difícil busca por renovação entre leitores que, cada vez mais, se voltam exclusivamente para os mangás; e – a melhor parte – o retrospecto da passagem na Marvel. Essa última, inclusive, rende mais um desabafo de um criativo com a falta de valorização ($) da “Casa das Ideias” pelas ideias dos seus, e, nesse caso específico, tal como as queixas de Ed Brubaker, curiosamente, também em cima do background do Capitão América; agora, no lugar de Buck “Soldado Invernal” Barnes, a conversão de Sam Wilson de Falcão para o próprio Sentinela da Liberdade.

Vale conferir. 

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PS. Se for comprar gibis do Remender, use nossos links afiliados.



[1] “Minha história familiar pelo lado do meu pai sempre foi um mistério. Meu pai nunca se deu bem com o próprio pai, saiu de casa aos treze anos e raramente falava do meu avô depois disso. Eu sabia que ele tinha sido piloto – um acrobata aéreo nos anos 1930, dando voos turísticos, vivendo sobre os céus de Nebraska, e depois servindo na Segunda Guerra Mundial –, mas pouco além disso. Só quando meu pai faleceu, alguns anos atrás, é que a história completa do meu avô entrou em foco. Enquanto organizava arquivos antigos da família, encontrei recortes de jornal que documentavam seu distinto serviço na Força Aérea durante a Segunda Guerra Mundial. Eles detalhavam suas condecorações e contribuições cruciais para derrotar Rommel no Norte da África — feitos dos quais eu nunca soubera. Isso me lembrou de algo que meu pai certa vez me disse: os pilotos, incluindo meu avô, recebiam metanfetamina rotineiramente para permanecer acordados durante horas intermináveis no ar. Ele voltou para casa vitorioso, mas profundamente abalado, carregando um vício e uma alma despedaçada que lançariam uma sombra sombria por três gerações. Essa luta pesou profundamente sobre meu pai, moldando sua vida – e, como todo trauma e abuso fazem – respingou na minha.”

domingo, 13 de abril de 2025

QUANDO OLIVER ERA UM CAÇADOR

“Al Muncy é o único herdeiro do império das Cervejas Muncy e suspeito de torturar e assassinar sete crianças de Seattle. Ele deveria estar sendo transferido para uma prisão em Washington, onde começaria a cumprir duas penas consecutivas de vinte anos por ter espancado brutalmente uma menina, em 1972. Porém, seus advogados emplacaram uma reviravolta ao conseguir um novo julgamento e, hoje, ao pagar uma fiança no valor de US$ 3 milhões, Al foi solto após dezoito anos. Ao libertar Muncy, a juíza Rachel Scrom estabeleceu normas rígidas. Ele permanecerá sob prisão domiciliar, confinado exclusivamente à propriedade de sua família, adjacente à cervejaria onde sua família fez fortuna. Uma fortuna que agora será gasta para defender um homem que muitos chamam de monstro!”

Esse é um dos relatos da imprensa noticiados nos recordatórios de Arqueiro Verde nº 1 (1988), de Mike Grell e Ed Hannigan. Annie, a pequena vítima que sobreviveu a Al, tornou-se, no presente, uma mulher adulta que, a um grande custo, deu a volta por cima e hoje atua como terapeuta de casais. É ela quem vem cuidando dos traumas emocionais de Dinah Lance, que se recupera do espancamento e, possivelmente, de um estupro sofrido na minissérie Os Caçadores (1988).

São temas viscerais, para não dizer indigestos. Numa outra continuidade, era o início de uma série mensal reverenciada, com toda a aura e apelo "Vertigo", porém, ainda assim, parte do Universo DC convencional. Muito embora, claro, existisse um lembrete onipresente nas (esplêndidas) capas de Greel: “recomendado para leitores adultos”.

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A passagem abaixo grita comigo: “no meu tempo é que era bom”.

Na continuidade atual, ouvi dizer que as histórias de Joshua Williamson para Oliver Queen giram em torno de dimensões paralelas e viagens temporais...

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Eh, não tem jeito: "no meu tempo é que era bom".

🎯🎯🎯

terça-feira, 1 de abril de 2025

EU, HEREGE

Do lado de lá, o Studio Ghibli está coberto de razão. A missiva a seguir, se insurge e bota na chincha os espertalhões do “Gib Studio LLC”, que vêm usando a iconografia e estética de Hayao Miyazaki em aplicações de inteligência artificial.

Trocando em miúdos, a sensação do momento é converter artes ou fotos em versões com a assinatura estilística dos clássicos da produtora japonesa.

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STUDIO GHIBLI, INC.

27 de março de 2025

Via e-mail e carta registrada

Gib Studio LLC

755 Dotings Ln

Miami, FL 33137

Assunto: Uso não autorizado da Propriedade Intelectual do Studio Ghibli – Notificação de Cessação e Desistência

Prezados Senhores da Gib Studio LLC,

Somos os representantes legais do Studio Ghibli, Inc. (“Studio Ghibli”), o renomado estúdio de animação responsável por obras cinematográficas originais como A Viagem de Chihiro, Meu Amigo Totoro, Princesa Mononoke, entre outras. O Studio Ghibli é o proprietário exclusivo de todos os direitos de propriedade intelectual associados, incluindo estilo visual, aparência de personagens, elementos temáticos e marcas registradas.

Chegou ao nosso conhecimento que sua empresa desenvolveu e lançou publicamente um aplicativo com o nome “Gib”, descrito como “um app de compartilhamento de fotos que transforma todas as fotos em imagens no estilo Studio Ghibli”. Esse produto aparenta se basear fortemente no estilo artístico, elementos de marca e temas visuais do Studio Ghibli, além de fazer referência direta ao nosso estúdio em materiais de marketing e promoção.

Informamos que isso constitui uso não autorizado e indevido de obras protegidas por direitos autorais, trade dress (conjunto-imagem), nome comercial e marca registrada do Studio Ghibli, podendo causar confusão entre consumidores quanto à existência de endosso, patrocínio ou afiliação — elementos que não existem.

Dessa forma, exigimos que:

  1. Cessem e desistam imediatamente de todo e qualquer uso do nome Studio Ghibli, de referências ao seu estilo, personagens ou filmes em qualquer aspecto promocional, descritivo ou funcional de seu aplicativo ou empresa;
  2. Interrompam a disponibilidade e distribuição do aplicativo “Gib” em todas as plataformas, incluindo, mas não se limitando, à Apple App Store, Google Play e demais marketplaces de terceiros;
  3. Removam ou retirem todo o material de marketing, sites e conteúdo em redes sociais que façam referência ao Studio Ghibli ou utilizem elementos visuais semelhantes;
  4. Forneçam por escrito, dentro de sete (7) dias a contar da data desta carta, uma confirmação de que estão cumprindo integralmente com as exigências acima.

Caso não haja o cumprimento das demandas, não nos restará alternativa senão buscar medidas legais cabíveis, incluindo, entre outras, pedido de liminar, indenização por perdas e danos materiais e morais, além do ressarcimento de honorários advocatícios — tudo isso sem necessidade de novo aviso.

Esta notificação não constitui uma declaração completa de todos os direitos do Studio Ghibli, os quais permanecem expressamente reservados.

Atenciosamente,

Sakura & Hoshino LLP

Advogados do Studio Ghibli, Inc.

legal@sakura-hoshino.com
+1 (212) 555-7283

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Do lado de cá, atire a primeira pedra quem nunca esqueceu tudo que escreveu...

Sim, sou um herege. Perdão, Pai Dillon. Perdão, Pai Miyazaki.

UM BOM HERÓI SEMPRE MORRE

Não tem jeito. O grande momento do herói é o sacrifício final em prol de outrem. E no caso da sequência abaixo - de DC Um Milhão nº 3, de Grant Morrison e Val Semeiks -, cinco minutos atrás, o sujeito sequer estava do lado certo da história. Seja com "h" minúsculo ou "H" maiúsculo.

Falo de Farris Knight, o Starman do século 853, hedonista, traidor convicto, guardião de Solaris, o sol tirano; que ao hesitar em assassinar Ted Knight, o Starman sênior do século 20, vê uma vida de possibilidades que poderia ter sido sua[1].

Um belo clichê que sempre funciona comigo.



[1] Historinha devidamente discutida em Os Escapistas – Starman #6: Outros Tempos Passados.

quinta-feira, 20 de março de 2025

VOCÊS ME PEGARAM!

 

O trecho acima pertence ao filme Lola, de Andrew Legge. Faz exatamente um ano que pesquei essa dica com o J.M. Straczynski. Como de praxe, adicionei na minha “lista” no Romênia + e por lá continuou até agorinha, em março de 2025. O meu interesse pelo mesmo foi subitamente ressuscitado quando vi amigos compartilhando o trailer de um tal de “A Máquina do Tempo”, que acabava de ser lançado nos cinemas brasileiros.

Para minha surpresa, trata-se do mesmo Lola que continuava sendo solenemente ignorado por mim. Corrigi isso em dois tempos, e já posso bater no peito que, para variar, o título nacional é genérico e não corresponde ao que de fato é o mecanismo "Lola". Quer dizer, o dispositivo criado pelas irmãs Hanbury – e batizado em homenagem a mãe – nada tem a ver com viagens temporais[1]. Muito pelo contrário, a tecnologia criada por Thomasina (Emma Appleton) e Martha (Stefanie Martini) no final dos anos 1930, tem como particularidade o fato de ser capaz de sintonizar sinais de rádio/televisão transmitidos do futuro.

Daí, o que as simpáticas irmãs fazem com isso? O que qualquer um faria: enriquecer com jogos de loteria e bisbilhotar a produção cultural de décadas a frente. Tudo ia muito bem para as Hanbury até o fatídico dia em que Adolf Hitler aconteceu e a Inglaterra passou a amargar duras derrotas no princípio da 2ª Guerra Mundial. Imaginando que poderiam mudar o curso do conflito e salvar milhares de vidas, sob o pseudônimo de “O Anjo de Portobello”, elas passam a fornecer dicas anônimas à inteligência militar sobre ataques e operações nazistas.

Chega-se a um ponto em que as previsões começam a mudar o rumo da guerra, e com ela o próprio futuro do qual já conheciam. Está instalado um efeito borboleta que leva às favas qualquer senso de previsibilidade anterior, e junto com ele, figuras notáveis como David Bowie, Stanley Kubrick e vários outros. Sem falar que o próprio nazifascismo torna-se um animal diferente.

Lola é curtinho. Tem nem 1h20min de duração e, quem diria, dá um trato daqueles na técnica batida do found footage. É que as irmãs registram seu cotidiano e todos os momentos que levarão ao clímax da história por meio de câmeras de 16 mm, como a Bolex e a Arriflex, equipadas com lentes do período. Já as cenas que simulam cinejornais da época foram capturadas com uma câmera Newman Sinclair de 35 mm, fabricada na década de 1930, usando filme Kodak Double X.

É um lance deveras criativo, que faz horrores pela imersão e autenticidade. Fino!

💀💀💀

Após assistir ao 4º episódio de Demolidor Renascido, tive a leve impressão que o Justiceiro repetirá a façanha da 2ª temporada da série original e ditará os rumos da história. Ora bolas, já estava ditando sem sequer aparecer, não acha?

Estou falando da banda podre da polícia nova-iorquina, adotando o memento mori de Frank Castle (Jon Bernthal) como inspiração leviana para seu “servir e proteger”. O tema, por sinal, atormenta a Marvel/Disney e não é de hoje. Se por um lado, a caveira estilizada já era uma iconografia cotidiana no exército norte-americano, com a autobiografia de Chris Kyle, o Sniper Americano, fica nítido que ela virou algo maior que o personagem. Uma ideia:

"- Nosso operador de comunicações sugeriu isso antes do destacamento. Todos nós achávamos que o que o Justiceiro fazia era incrível: ele corrigia injustiças. Ele matava caras maus. Ele fazia os malfeitores temê-lo. Era exatamente isso que representávamos. Então, adotamos o símbolo dele — um crânio — e o transformamos em algo nosso, com algumas modificações. Pintamos com spray em nossos Hummers, em nossos coletes balísticos, capacetes e em todas as nossas armas. E pintamos com spray em cada prédio ou muro que pudemos. Queríamos que as pessoas soubessem: estamos aqui e vamos acabar com vocês. Era a nossa versão de guerra psicológica. Estão vendo a gente? Somos os caras que estão detonando vocês. Temam-nos. Porque nós vamos matar vocês, seus filhos da puta. Vocês são maus — nós somos piores."

Piora quando Jon Bernthal passa a ser cobrado a dar esclarecimentos sobre fotos de manifestantes na invasão do Capitólio em 6 de janeiro (de 2021), usando a logomarca. Gerry Conway, cocriador do Justiceiro, chegou a dizer sobre policiais flagrados estampando-a em viaturas e/ou equipamentos:

“- Por definição, ele é o oposto do que eles deveriam ser, sabe? Ele é alguém que está fora da lei tomando a lei em suas próprias mãos. Então, se eles estão reivindicando o Justiceiro como seu símbolo, eles estão dizendo que são foras-da-lei e que eles são criminosos e que eles são inimigos da sociedade. É realmente isso que eles querem dizer? [...] Quero negar à polícia, à milícia e aos militares a oportunidade de usar isso como um símbolo de opressão. [...] A Disney sabe que isso é radioativo. Eles vão deixá-lo desaparecer. O que para mim é uma vergonha."[2]

Entretanto, acho que ninguém foi tão contundente e literal num contraponto quanto foi a dupla Matthew Rosenberg e Szymon Kudranski em The Punisher nº 13/2018 (ou Justiceiro, Vol. 3: Rua a Rua, Quadra a Quadra):

O que estou pensando: a Marvel/Disney está com a caveira bola na mão. O que quer que será do Justiceiro daqui para frente, virá do que estão planejando nos próximos episódios de Demolidor. Creio que a sequência acima tem boas chances de ser adaptada para a telinha, porém minha inquietação é outra. Me pergunto se o velho Frank terá munição suficiente para abrir caminho nos corações & mentes de tanta gente besta, deixar para trás os cafundós de Mefisto e, por fim, ter de volta um lugar no Universo 616. 

 A conferir.

💀💀💀

Links Afiliados


[1] Se fosse para arriscar uma referência pop dessa “máquina do tempo”, eu iria de Alta Frequência.

[2] Vire e mexe, Conway é instado a se manifestar sobre a apropriação da caveira do Justiceiro. Para fins desse texto, capturei excertos de matérias na Forbes e no CBR. Por outro lado, nunca vi o Garth Ennis falando a respeito, mas imagino que em Justiceiro MAX nº 49 (O Fazedor de Viúvas), o irlandês disse tudo em uma página só.

segunda-feira, 17 de março de 2025

A CULPA É SUA!

Fazendo uma rápida consulta na loja virtual da Panini, o preço (cheio) do omnibus da fase noventista do X-Factor comandada por Peter David é de R$ 349,90. Já os dois volumes gigantescos do Hulk assinados pelo mesmo, custam estratosféricos R$ 819,80. No lado da DC, as três edições capa dura de sua Supergirl correspondem a um investimento de R$ 424,70 e o vindouro Aquaman davidiano, em seu volume de estreia, “módicos” R$ 164,90.

Com alguns descontos de praxe e/ou parcelamentos mil, sua alma tende a ficar ligeiramente mais leve. Por outro lado, espero que ela – sim, a alma – pese bastante na hora de sacar o cartão de crédito e lembrar-se dessa foto acima do Sr. David.

O registro fotográfico encabeçou o artigo de Rich Johnston no Bleeding Cool, em 14 de março de 2025. O texto repercute a saúde fragilizada do escritor de 68 anos, pego para Judas em meio à insuficiência renal, derrames e um ataque cardíaco. Vítima de um país cujo capitalismo selvagem nutre um sonho (americano) que não permite a existência de algo como o (nosso) SUS, David se viu desamparado pelo Medicaid e, como sua esposa revela, está agora abandonado à própria sorte:

“A versão curta é que estamos nadando em dívidas médicas devido à rejeição de Peter para o Medicaid – o que era uma das poucas coisas que estava dando certo. Como muitos de vocês sabem, o seguro só paga até certo ponto. Uma vez que se tenha usado isso, depende-se dos serviços sociais para permitir que se viva sem ficar sem teto e sem dinheiro. É isso que o Medicaid tem feito nos últimos dois anos.”

O relato na íntegra de Kathleen David causa ainda mais desalento, e serve de apelo aos fãs numa campanha de financiamento coletivo para arrecadar US$ 150 mil. A julgar pelos mais de US$ 80 mil já doados, o prognóstico é de que nos próximos dias, felizmente, a meta seja atingida.

***

Não que isso sirva para aliviar sua consciência. Ela deveria, sim, pesar e muito. Afinal, quando se paga por aqueles gibis lá em cima, por uma particularidade arcaica e predatória dos contratos work for hire (trabalho sob encomenda), os autores Marvel/DC não recebem royalties nas vendas de reimpressões realizadas fora dos Estados Unidos.

Isso ocorre por dois motivos: 1) as duas editoras majors vendem os direitos internacionais para outras empresas (como a Panini no Brasil), e essas republicações, obviamente, não fazem parte da tiragem original do quadrinho nos EUA; e 2) no mais das vezes, os acordos não incluem pagamentos sobre republicações internacionais.

Desse modo, os escritores e desenhistas não recebem percentuais sobre esses novos contratos, a menos que seja algo especificamente negociado. A exemplo do feito conseguido por Neil Gaiman em Sandman que, embora nunca revelado os termos exatos, tem-se como certo tanto o recebimento dele de royalties internacionais pelas vendas, quanto de dividendos consideráveis em torno de adaptações e merchandising. Insight parecido teve Rob Liefeld que, enquanto esteve na crista da onda durante a febre mutante dos anos noventa, conseguiu emplacar direitos sob o copyright de algumas criações em Novos Mutantes/X-Force: “Quando Deadpool explodiu no Fortnite, isso foi realmente bom para a educação privada dos meus filhos? Sim. Sim, foi. [...] Tenho fluxos de receita do Deadpool que existem desde 1991.”[1]

***

Como David não conta mais com vigor para fazer aparições em eventos e a cognição deve estar agora em frangalhos após múltiplos AVCs, não consigo vê-lo produzindo novos roteiros para o seu empregador mais corriqueiro. Sem qualquer criação indie digna de nota, construindo uma carreira profícua, porém, majoritariamente atrelada a medalhões corporativos, é difícil crer que haverá uma reviravolta. Do mesmo modo que nunca houve para o grosso dos notáveis que criaram sem limites e, em algum momento futuro, esbarraram numa limitante realidade.[2]

O problema, entretanto, é que o leitor/consumidor não costuma dar bola para esses dilemas paradigmáticos da criação artística. Chega a ser ininteligível quando, por exemplo, a mão que acaricia a obra de Alan Moore, costuma ser a mesma que apedreja a animosidade do autor com a indústria do entretenimento e sua fome insaciável de buyout.

Reformulando para o espírito desse texto:

A mão que compra o omnibus do Hulk, é a mesma que faz vista grossa com o Peter David virando estatística na assistência social de Donald Trump.

Há que se botar a boca no trombone, mas mais importante que a(s) voz(es) solitária(s) do(s) autor(es), cabe ao leitor das “republicações internacionais” a iniciativa inédita de não pactuar mais com esse estado de coisas. Por mais quixotesco que isso possa parecer.

Não compre e veja a mágica acontecer.



[1] Especula-se que até 2024, Liefeld tenha lucrado entre US$ 10 milhões e US$ 20 milhões com sua cota-parte em Deadpool.

[2] Em Pulp, Ed Brubaker e Sean Phillips ilustraram um worst case scenario da experiência frustrante do primeiro em O Soldado Invernal, enredando uma trama onde um escritor de folhetim descobre que seu personagem não lhe pertence e não tem mais saúde ou finanças para seguir em frente. De repente, o ficcional Max Winters parece muito o verídico Peter David.

sábado, 15 de março de 2025

E O CORPO AINDA É POUCO

Nunca me esquecerei desse dia, doze anos atrás. Sofri uma fratura na mão direita após um acidente e precisei ser operado. Apesar da dor insuportável e a queda de pressão ao escorregar no banheiro, a cirurgia foi relativamente simples. Bem mais problemático foi o longo processo de recuperação, com sessões diárias de fisioterapia. Mas o tal dia inesquecível não foi do fato em si e, sim, de alguns minutos excruciantes na sala de recuperação. Quer dizer, sala é um eufemismo tardio para mesma.

Ao recuperar os sentidos, me vi imobilizado numa maca dentro no que, hoje, acredito ter sido um cubículo de almoxarifado. No meu ângulo de visão, só enxergava esfregões, material de limpeza e documentos empilhados numa estante. Não tenho certeza se isso foi alguma confusão mental diante dos resquícios da anestesia me pregando uma última peça, mas o que veio a seguir pareceu tão vívido quanto o que o etéreo Patrick Swayze “vivenciou” em Ghost: Do Outro Lado da Vida (1990).

Pois, à medida que ficava lúcido, me inquietava com o local onde supunha estar, fora a necessidade desesperadora de urinar, porém, incapaz de fazê-lo por estar imobilizado. Então, quando vi e ouvi pessoas conversando próximas de mim, tentei chamá-las. Como estava sendo deliberadamente ignorado, aos poucos fui aumentando o tom, até que o desespero bateu e ameacei descarregar uma chuva dourada ali mesmo. Ainda assim, ninguém parecia se importar com isso.

Por alguns longos instantes, passei a cogitar que alguma coisa havia dado errado no procedimento... Um choque anafilático? Um infarto fulminante? Uma parada cardíaca...?! Qualquer coisa inesperadamente mortal que tivesse abreviado minha existência e, naquele momento, meu espírito estava preso e invisível no lado de cá.

Uma eternidade mais tarde, uma enfermeira – visivelmente preocupada em ter que dar conta de um paciente todo mijado – deu sinal de “vida” e me trouxe um urinol. Nunca fiquei tão aliviado. Literal e figurativamente falando.

***

Enquanto lia Dylan Dog: Mater Morbi (Mythos/2024), essa memória insólita veio de novo a mim. No quadrinho de Roberto Rechionni e Massimo Carnevale, o Investigador do Pesadelo se vê prostrado em meio a uma internação hospitalar para tratar de doença sem diagnóstico. Hipocondríaco clássico, ele se apavorado com os exames sem fim, a desorientação pela perda recorrente dos sentidos e procedimentos mil que levam a uma massa de matéria obscura.

Como se isso já não fosse o bastante, ele passa a ter contato com uma estonteante figura de espartilho que se identifica como a Mãe das Doenças. Quase uma figura intermediária entre os Perpétuos Desespero e Morte; o que a propósito, não parece ser um mero “devaneio” de minha parte.

Ao contrário do grosso das tramas do Oldboy bonelliano, o humor nada sutil[1] fica de lado, dá vazão às investidas sadomasoquistas da tal matriarca e, no canto do olho, um olhar byroniano sobre a perda da saúde. Uma visão, por sinal, tão sensível quanto cruel sobre o triste processo de desumanização das pessoas em meio a enfermidades incuráveis. Some-se a isso o horror psicológico traduzido nas belas páginas de Carnevale, com uma excentricidade pré-existente de Rechionni em redigir posts sobre doenças.  

Originalmente, Mater Morbi saiu na edição nº 280, de 2012. Segundo os extras assinados por Júlio Schneider, a forte introspecção desse enredo ganhou projeção na mídia italiana, chegando a alavancar uma discussão (séria) sobre ética médica e eutanásia nos jornais e na TV.

Do lado de cá, penso que é uma ótima isca para novos leitores do personagem.



[1] Costumeiramente levado a cabo pelo insuportável Groucho Marx.

 

sexta-feira, 31 de janeiro de 2025

HABEMUS FILMAÇO!

"Deixem-me dizer-lhes, há um pecado, que vim a temer mais que todos os outros: Certeza. A certeza é a maior inimiga da unidade. A certeza é a inimiga mortal da tolerância. Mesmo Cristo não estava seguro no final. Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? Ele clamou em sua agonia na nona hora na cruz. Nossa fé é algo vivo, exatamente por caminhar de mãos dadas com a dúvida. Se houvesse apenas certeza e não dúvida... Não haveria mistério e, portanto, nenhuma necessidade de fé. Vamos rezar a Deus que nos garanta um Papa que duvide. Um Papa que peque e peça perdão, e que prossiga em frente."

Essa passagem é registrada pelo Decano Lawrence (Ralph Fiennes) em sua homilia, três meses após a morte do Papa. O discurso inaugura as deliberações para o Conclave e as subsequentes votações que resultarão na escolha do novo Sumo Pontífice. A mensagem é uma clara alfinetada a um dos cardeais que postulava o cargo, que horas antes, em off, destilava ao próprio Lawrence uma intolerância velada aos avanços da Igreja em pautas progressistas e o desejo de que o papado voltasse a ser comandado por italianos natos.

Lawrence preside a eleição e não anseia o cargo em disputa, mas vota abertamente no Cardeal Bellini (Stanley Tucci), um amigo próximo, crítico do retrocesso e talvez um bom sucessor do finado Santo Padre. Num passado recente, Lawrence passou por uma crise de fé, não em Deus, mas na instituição e, agora, diante de vários homens que desejam mais do que tudo o poder papal, ele terá que andar na corda bamba, entre a isenção que o pleito exige e a (dura) realidade que se apresenta.

O que me impressionou de verdade no filme de Edward Berger foi o fato de que, no frigir dos ovos, trata-se de uma história de detetive. Sim, existem mistérios - ou seriam esqueletos nos armários? - em torno dos candidatos e eles devem ser elucidados - ou desentocados dos armários? - para garantir uma eleição limpa. Ou, vá lá, evitar que o homem errado vire Papa?

Isso quem tem que responder é o espectador que, do outro lado da tela, se vê tenso e perplexo no enredo mais improvável dos Oscarizáveis de 2025. E se quer saber, por ora, minha torcida para a estatueta de melhor ator é toda do Decano Fiennes[1]. Afinal, o que ele precisa entregar aqui não é pouco: transmitir controle emocional em meio a situações limítrofes onde um exausto Lawrence tem que domar egos, pacificar ímpetos e contemporizar sua fé cristã.

Dada a inesperada humanização de um ritual que paralisa o mundo (real), não é de se espantar que o roteiro de Peter Straughan e Robert Harris esteja causando furor nas premiações mundo afora. E nem vamos comentar a ousadia daquele desfecho...

Habemus filmaço... e bolas!



[1] Atualizado após o Oscar 2025: não foi dessa vez. O vitorioso da noite foi o agora bicampeão Adrien Brody, por sua atuação em O Brutalista. Porém, a dupla que citei acima levou a estatueta de Melhor Roteiro Adaptado; a única dentre as oito a que estava concorrendo.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

O TRIUNFO DE SUE

Relutei um pouco em assistir A Substância (The Substance, 2024). Em algum momento do ano passado, o filme virou assunto nos meus círculos, fora a onipresença nas redes sociais via Gifs e Memes. Porém, o fato de ter visualizado - contra a minha vontade - cenas de gore e a óbvia percepção que se tratava de um body horror, me tiraram do caminho tortuoso percorrido por Elisabeth Sparkle (Demi Moore).

Nunca me dei bem com o subgênero, a despeito de apreciar a visceralidade do cinema de David Cronenberg. Com a indicação ao Oscar na categoria melhor filme, fiquei genuinamente curioso e decidi me submeter a tal experiência tão alardeada no enredo de Coralie Fargeat. Na trama, a personagem de Moore é uma estrela de um tradicional programa de ginástica na TV, tão conhecida no meio que seu nome foi adicionado à Calçada da Fama.

O problema é que os índices de audiência andam em baixa e o produtor (Dennis Quaid, asqueroso em cada frame) bota isso na conta da idade de Sparkle. Para o executivo, ela estaria velha e era hora de procurar uma substituta mais jovem. Demitida, Sparkle se via agora na rua da amargura, tendo que aceitar a aposentadoria forçada, até o dia em que recebe anonimamente o convite para participar de um experimento.

Ela injetaria uma substância ativadora que, a partir de sua coluna cervical, daria origem ao que parecia ser uma versão jovem de si mesma. A ideia era que, como "Matriz", Sparkle trocaria de lugar com seu outro Eu em rodízios rigorosamente pré-determinados. Enquanto uma hibernava, a outra assumiria. No caso de "Sue" (Margaret Qualley) - o Eu mais jovem -, em segredo, decide competir pelo lugar de Sparkle na TV e não só consegue, como passa a ser a nova queiridinha do canal.

Em dado momento, quando o revezamento começa a dar errado - especialmente para Sparkle -, a subjetividade entra em cena e te leva a questionar se as duas realmente são a mesma pessoa, ou melhor, uma só pessoa diante de um worst case scenario de autossabotagem.

Moore e Qualley estão impossíveis em atuações com mais fisicalidade do que trocas intensas de diálogos. São silêncios, por vezes, incômodos e uma sexualidade propositalmente fútil; essa última reforçada pelo close-up extremo da câmera da diretora Fargeat. O clímax de A Substância é difícil de assistir e se tiveres uma resistência ao body horror parecida com a minha, te adianto que serão vinte minutos de pura agonia.

Uma agonia que, acredito, deve ser catártica para os fãs desse tipo de horror. Por último, me surpreende (positivamente) a Academia[1] trocar seu arroz com feijão básico pelos sabores fortes desse baião de dois & queijo gorgonzola.



[1] Atualizado após o Oscar 2025: das três indicações a que concorreu, entre melhor filme, atriz e maquiagem & cabelo, o único êxito foi na última. O que, confesso, foi uma surpresa. Imaginava que essa categoria seria batata para Nosferatu, porém, a produção de Robert Eggers saiu de mãos abanando. Já Moore tinha um páreo duro com Fernanda Torres e Mikey Madison; o que não diminui nem um pouco o impacto do plot twist, vendo a jovem Su-- Anora abocanhando a estatueta das veteranas.