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quarta-feira, 4 de novembro de 2026

RESGATE PSÍQUICO: GIBIS DEPOIS DO FUTEBOL, ÔNIBUS BOMBADO E A GEMADA DO CAPIROTO!

Na nona arte, nem sempre releio os títulos de que gosto. Quer dizer, são quase quarenta anos nessa vida de gibizeiro e, portanto, muitas memórias afetivas construídas ao longo desse tempo. Coisas que são, hoje, meus alicerces como leitor, com edições – ou adições – que fermentaram e ganharam vida própria dentro da cachola. Daí, reler, às vezes, é como desmistificar ou tirar o véu da beleza e da emoção que circundam alguns quadrinhos. Cada um tem sua própria história dentro de mim, a exemplo da minha revista favorita dos Vingadores.

E isso merece um momentum Anton Ego:

Garoto, voltando do futebol à noite, dormi na casa do meu melhor amigo. Tinha escola no outro dia. Sem sono, fui bisbilhotar num armário que estava abarrotado de gibis. O detalhe é que meu chapa não lia gibis. Pertenciam ao pai dele. Mexi sem parar. Vi vários Heróis em Ação, Heróis da TV, Superamigos... e um tal de Grandes Heróis Marvel n° 8. Peguei e li até dormir. O primeiro Sal Buscema a gente nunca esquece. No dia seguinte, levei vários gibis do pai do meu amigo para casa, incluindo esse GHM. Ainda o tenho por aqui. Vou relê-lo? Jamais.

Por que eu deveria reler? Seja lá o que estiver ali dentro, no enrosco enredado por Steve Englehart entre Vingadores, Defensores, Loki e Dormammu... nada daquilo fará frente à pureza daquela madrugada de descobertas. Se muito, arrisco folhear e me deliciar com a passagem mais icônica da HQ e, quiçá, uma das mais viscerais do Universo Marvel: 

Obviamente, essa não é a versão da Abril. Inclusive, o Guia dos Quadrinhos registra que a história original teve nada menos que 24 páginas cortadas! Quer dizer, minha memória afetiva tem uma edição a menos do que deveria. 

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Posto isso, não mantenho o mesmo primado na sétima arte e digo mais: estou num projeto meio maluco de rever filmes oitentistas/noventistas que vi no cinema ou em VHS, foram marcantes, mas pouco revi ou nem revi. E aí, quando consigo assistir, procuro o n° da saudosa Revista Set em que o então lançamento foi resenhado e concluo minha viagem no tempo.

Estabelecidas as regras dos resgates psíquicos, recentemente fiz duas operações de busca & salvamento. A primeira delas foi Velocidade Máxima (Speed, 1994), o frenético suspense policial que, ao lado de Caçadores de Emoção (Point Break, 1991), plantou nas nossas mentes a ideia de que Keanu Reeves daria um ótimo herói. E como deu. No filme, Jack Traven (Reeves) é um oficial da S.W.A.T. de Los Angeles, que se vê às voltas com um ex-especialista do esquadrão antibombas (Dennis Hopper), plantando bombas em locais públicos ante a exigência de uma bolada milionária para reparar injustiças e as mutilações que sofreu a serviço da corporação. Um desses locais, na verdade, é um ônibus público, que precisa ficar o tempo todo a uma velocidade acima de 80 km/h; se o motorista reduzir, boom!     

A beleza e a diversão do filme sobrevivem ao tempo justamente pelo aspecto artesanal das tomadas de Jan De Bont – diretor de pouquíssimos e irregulares longas, porém um diretor de fotografia de primeira prateleira –, o que deixa as imagens e toda a ação atemporais. Se rodado hoje, fatalmente, 90% do que se vê no trânsito caótico e nas autoestradas (freeways) de LA seriam construtos oriundos de tela verde e CGI.

E sobre isso, olha só a bagaceira:

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A Alegria dos Funileiros

(transcrito da Revista Set nº 86)

Quem adorou Velocidade Máxima foram as oficinas de funilaria. Depois de concluídas as filmagens, o filme de Jan De Bont deixou 200 carros totalmente destruídos. "Não sei se é um recorde mundial de veículos destruídos", diz o diretor, "mas não me lembro de nenhum outro filme que tenha mostrado tantos acidentes."

Boa parte dos US$ 35 milhões do filme foi gasta nas sequências que mostram o ônibus desgovernado causando destruição nas rodovias de Los Angeles. Só para a cena do ônibus avançando rumo a um engarrafamento, a produção teve que alugar 500 carros para lotar a rodovia – que estava ainda em vias de ser inaugurada. "Foi muito trabalho", diz De Bont, "mas valeu a pena. Speed não parece um filme de US$ 35 milhões, mas sim de US$ 100 milhões".

No total, a produção usou cerca de 700 carros durante as filmagens. O ônibus em que Keanu Reeves e Sandra Bullock passam a maior parte do filme não era um só, mas onze. "À medida que ele ia sendo destruído, nós o substituíamos", diz o diretor. A utilização de tantos ônibus acabou gerando um grosseiro erro de continuidade: um dos ônibus tem uma placa do lado esquerdo, com um desenho de uma zebra. Às vezes, a placa misteriosamente "some" do ônibus e reaparece momentos depois. "Nem percebi", diz De Bont. "Também, tinha tanta coisa em que pensar."

A equipe técnica teve que construir um ônibus especial para as filmagens, com um volante falso que era dirigido por Sandra Bullock, enquanto alguns metros à frente um dublê guiava o ônibus. Entre Sandra e o dublê, num espaço de dois metros, Jan De Bont instalou quatro câmeras que, filmando Sandra de frente, davam a impressão de que era ela quem estava dirigindo o ônibus. "As curvas que o ônibus faz com Sandra ao volante são verdadeiras", garante De Bont. "Foi desesperador", resume a atriz.

A.B.

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E só mais essa: o desfecho de Velocidade Máxima acontece numa estação de metrô; o grande filme seguinte de Keanu Reeves, Matrix (1999), também atingiria sua apoteose numa locação similar. Pensando em retrospectiva, não duvido que a passagem de Neo preso num looping ferroviário em Revolutions seja uma espécie de piada interna das Wachowski com Reeves. Será? Gosto de pensar que sim.

***

A segunda operação de busca & salvamento foi com Coração Satânico (Angel Heart, 1987). Tenho quase certeza de que foi a minha primeira reprise do filme. Em termos de plot twist, é o "Sexto Sentido" dos anos 1980, com um final inesquecível, não importa há quanto tempo se tenha assistido a trama detetivesca, ambientada em 1955, com toques de Raymond Chandler. Harry Angel (Mickey Rourke) é contratado por Louis Cyphre (Robert De Niro), um homem de negócios que deseja localizar o paradeiro de um cantor desmemoriado que tem uma grande dívida, da qual é o seu credor. Entremeada por satanismo, magia negra e vodu, a investigação parte de Nova Iorque e se desdobra nas noites de jazz da Louisiana. O grande destaque, porém, fica por conta das interações entre Harry e o misterioso empregador, um tipo formal, engravatado, de olhar inquietante, que parece sempre à espreita no canto do olho.

Coração Satânico é o filme que estampa a capa da edição de estreia da Revista Set, trazendo consigo um review com excertos de falas do diretor Alan Parker e uma entrevista bastante reveladora de Rourke, que, inclusive, dá outra conotação ao clima dessa cena-chave:

Cyphre: "Você sabia que em certas religiões o ovo é o símbolo da alma?"

Angel: "Não."

Cyphre: "Você quer um ovo?"

Angel: "Não... Sabe, as galinhas..."

De Niro, impaciente, então morde o ovo, o que significa tomar posse da alma de alguém. Daí, de comum acordo, De Niro e Parker terminaram filmando cinquenta closes diferentes de De Niro mordendo um ovo duro...

A cena transparece um visível incômodo do detetive frente a seu contratante, ressoando um certo desprezo do aristocrata com quem está abaixo dele. O que eu não contava é que essa impressão extravasou às câmeras:

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SET: Quem vê Coração Satânico sai fascinado pelas cenas em que você se defronta com Robert De Niro...

Rourke: Ah, no início foi a guerra! A gente se conhecia de vista, por ter se cruzado em restaurantes e ter trocado amenidades... Em Coração Satânico, nosso encontro aconteceu numa bela manhã no Harlem, no cenário de nossa primeira cena juntos. Nessa cena, eu entro – ele está sentado –, aperto a mão dele, sento à sua frente e o diálogo começa... Ensaiamos duas, três vezes, sem nenhum problema, e então decidimos rodá-la. Parker diz “Ação!”. Eu entro, De Niro estende a mão, aperta a minha... e não larga mais! Ficamos assim, olhando um para o outro, até eu recuperar minha mão... A guerra havia começado.

SET: A guerra durou muito tempo?

Rourke: Não... Mas mesmo assim cada um controlava o outro, querendo ser o melhor... É normal. Contracenar com De Niro me esgotou – ele é tão concentrado, continuamente, que deixa o ambiente da filmagem mais tenso. Eu me sinto melhor quando tudo à minha volta é mais cool. De Niro fica no espírito da cena o tempo todo, desde o primeiro segundo da primeira cena. Se você não quiser se perder, é preciso colocar-se no nível dele, constantemente. Assim, quando ele improvisa, quando ele recomeça, quando ele inverte o texto, você sincroniza na hora, sem ficar para trás... Quando chegava a noite, depois de trabalharmos juntos, eu me sentia completamente vazio, esgotado.

SET: Mesmo assim, deve ter sido um belo encontro...

Rourke: Sim e não. Eu aguardava este encontro com impaciência, antes das filmagens. Eu pensava que um monte de coisas ia acontecer. De fato, os papéis nos condicionavam a um certo tipo de relacionamento: medir forças. Foi um encontro, nada mais. Não desenvolvemos nenhuma relação de companheirismo porque os personagens nos impediam de sentir um nível de igualdade.

Depois, não é do feitio de De Niro ficar fuçando no set, como eu, entre duas cenas, coisa e tal. Acho que na cena em que o encontro na igreja, inverti a relação de forças a meu favor (risos)... Mas também é verdade que um parceiro desses ajuda o seu papel. Estou satisfeito com o meu desempenho na cena final – acho que aí atingimos um bom nível.

***

Quer dizer, de acordo com o relato de Rourke, subentende-se que De Niro, propositalmente, forçou a amizade no método justamente para colher os frutos de uma boa construção e representação dos dois personagens – ainda que o próprio intérprete de Harry Angel não pareça ter se dado conta disso e levado um pouco as coisas pro pessoal. Como fã inveterado de Hellblazer, especialmente da passagem de Garth Ennis e Steve Dillon no título, vejo claramente uma paródia dessa dinâmica, com John/Harry colocando Satã/Louis no seu devido lugar. 

Acho relevante mencionar que o dueto endiabrado aí nem tinha uma diferença de idade considerável – De Niro com 43 e Rourke com 34 –, mas estavam, visivelmente, em outra vibração. 

Um brinde de gemada aos dois.

*** 

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sábado, 31 de outubro de 2026

UMA JUSTA SEDE POR BONS GIBIS

O atual Twitter, nunca “X”, é uma zona, mas ainda é possível descobrir coisas interessantes por lá. Uma delas foi descobrir que o perfil de André Lima Araújo, um nome que passaria tranquilamente pelo de um brasileiro, e o qual eu já seguia há um tempinho, na realidade pertencia a um lusitano, de Ponte de Lima – conhecida como a vila mais antiga e, provavelmente, mais linda de Portugal. Seus esboços, compartilhados na rede, sempre me chamavam a atenção por lembrar o detalhismo visceral de um Geof Darrow (Hard Boiled), porém, foi só quando li Uma Justa Sede por Vingança (A Righteous Thirst For Vengeance, Image/2021) e que fiquei realmente impactado com a narrativa de Araújo: havia ali a cinética explosiva de um Hiroya Oku (Gantz) e a contemplação do mundano, à moda slice of life, de um Jiro Taniguchi (O Gourmet Solitário).

Fruto da colaboração com Rick Remender, uma máquina azeitada de produzir gibis autorais, a dupla também esclarece que se conheceu via Twitter e estendeu a parceria para outro projeto, The Sacrificers, que ainda preciso ler. Falando especificamente de Remender, do que li dele, tenho boas recordações, inclusive do período mais comercial na Marvel, como o prazer culposo Franken-Castle e a elogiada Fabulosa X-Force; da extensa bibliografia de indies, desponta Deadly Class, com Wes Craig, entre as minhas preferências; sobretudo por conta do elemento autobiográfico, como expiação de uma juventude problemática fruto de abusos mil, alguns deles, parentais, o inspirando a escrever Escape, com Daniel Acuña.[1]

Não obstante, até onde sei, Remender não tira de Uma Justa Sede por Vingança alguma anedota de sua vida pessoal, o que, vamos combinar, seria preocupante se tirasse. Também estanca sua verborragia usual, rica em monólogos internos densos, em prol do storytelling silencioso de Araújo, com diálogos mínimos dispostos numa quantidade privilegiada de ângulos e tomadas. Quase um projeto arquitetônico em forma de gibi, haja vista a profissão anterior do desenhista, que é arquiteto de formação. No enredo, ambientado inicialmente em Vancouver, temos Sonny Wen, um investigador de seguros – a cara do ator Benedict Wong – que topa com o anúncio para um assassino profissional na dark web e que, confrontado com a proposta, decide assumir a identidade do matador e evitar que a morte encomendada aconteça.

Só que, quando Wen chega ao local, ele descobre que não foi o único assassino a ser chamado e ingressa numa jornada com requintes de Onde os Fracos Não têm Vez e Estrada para Perdição, em que será caçado e viverá uma paternidade involuntária. Sem explicar muito, as onze edições vão dando conta de uma figura antagônica desprezível, quase um híbrido de Trump e Epstein, um tipo que certamente teria saído dos quadrinhos mais tresloucados de Garth Ennis. E quando não é isso, paradoxalmente, as páginas de Uma Justa Sede por Vingança são permeadas por passagens bucólicas, com rotinas da vida cotidiana, como pegar um ônibus, comprar camarão na feirinha ou visitar os seus entes queridos... isso até que a violência irrompa de forma repentina e tudo vá para o inferno... o inferno na Terra.

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Off-topic, mas nem tanto...

John Siuntress é uma figuraça na cena dos quadrinhos norte-americanos, uma vez que seu podcast, Word Balloon, provavelmente é um dos pioneiros nesse nicho, estando por aí desde 2005. Antes disso, ou paralelo a isso, vai saber, ele já era um repórter experiente da CBS Radio Chicago, o que dá a exata noção do bom traquejo na mídia e da interlocução com vários expoentes da indústria, seja das majores, seja da cena independente. A maior parte do acervo é em áudio, mas, de um tempo para cá, Siuntress tem disponibilizado os programas em vídeo, no YouTube – por sinal, algo maravilhoso, já que, atualmente, dá para assistir aos papos com legendas em português BR. Uma diversão involuntária é notar que Siuntress, uma cria do rádio, pouco se importa com a qualidade das imagens, inclusive da própria, que parece ser gravada com uma Tekpix e numa tela verde de quinta categoria.

De todo modo, no último dia 5 de setembro, Remender foi o entrevistado da vez, objetivando a divulgação de Hammerfist, nova série com a colaboração inédita de Steve Epting (Velvet); segundo o escritor, Cães de Aluguel encontra Evil Dead II. O que é uma analogia válida, visto que o protagonista, Mike Denton, parece mesmo ter saído do filme de estreia de Quentin Tarantino e ser um daqueles ladrões com alcunhas de “Senhor alguma cor”, que em algum momento se depara com uma força arcana irresistível. Denton, na realidade, é um jagunço que mata gente por qualquer trocado, desde que isso compre a próxima dose de crack e a brisa lhe leve para longe dos deveres e responsabilidades com a filha. Tudo mudaria se o belo butim prometido num assalto a banco de que participaria fosse mesmo pago; algo que, como veremos, era um embuste para reunir algumas buchas de canhão e acessar uma enigmática manopla de poder. O detalhe é que, diferente dos outros comparsas, Denton sobrevive e fica com o objeto, imaginando se aquilo renderá uma boa grana. 

Para além disso, Siuntress cava uma longa discussão sobre a fidelização do público com a sua produção autoral; a difícil busca por renovação entre leitores que, cada vez mais, se voltam exclusivamente para os mangás; e – a melhor parte – o retrospecto da passagem na Marvel. Essa última, inclusive, rende mais um desabafo de um criativo com a falta de valorização ($) da “Casa das Ideias” pelas ideias dos seus, e, nesse caso específico, tal como as queixas de Ed Brubaker, curiosamente, também em cima do background do Capitão América; agora, no lugar de Buck “Soldado Invernal” Barnes, a conversão de Sam Wilson de Falcão para o próprio Sentinela da Liberdade.

Vale conferir. 

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[1] “Minha história familiar pelo lado do meu pai sempre foi um mistério. Meu pai nunca se deu bem com o próprio pai, saiu de casa aos treze anos e raramente falava do meu avô depois disso. Eu sabia que ele tinha sido piloto – um acrobata aéreo nos anos 1930, dando voos turísticos, vivendo sobre os céus de Nebraska, e depois servindo na Segunda Guerra Mundial –, mas pouco além disso. Só quando meu pai faleceu, alguns anos atrás, é que a história completa do meu avô entrou em foco. Enquanto organizava arquivos antigos da família, encontrei recortes de jornal que documentavam seu distinto serviço na Força Aérea durante a Segunda Guerra Mundial. Eles detalhavam suas condecorações e contribuições cruciais para derrotar Rommel no Norte da África — feitos dos quais eu nunca soubera. Isso me lembrou de algo que meu pai certa vez me disse: os pilotos, incluindo meu avô, recebiam metanfetamina rotineiramente para permanecer acordados durante horas intermináveis no ar. Ele voltou para casa vitorioso, mas profundamente abalado, carregando um vício e uma alma despedaçada que lançariam uma sombra sombria por três gerações. Essa luta pesou profundamente sobre meu pai, moldando sua vida – e, como todo trauma e abuso fazem – respingou na minha.”

domingo, 13 de abril de 2025

QUANDO OLIVER ERA UM CAÇADOR

“Al Muncy é o único herdeiro do império das Cervejas Muncy e suspeito de torturar e assassinar sete crianças de Seattle. Ele deveria estar sendo transferido para uma prisão em Washington, onde começaria a cumprir duas penas consecutivas de vinte anos por ter espancado brutalmente uma menina, em 1972. Porém, seus advogados emplacaram uma reviravolta ao conseguir um novo julgamento e, hoje, ao pagar uma fiança no valor de US$ 3 milhões, Al foi solto após dezoito anos. Ao libertar Muncy, a juíza Rachel Scrom estabeleceu normas rígidas. Ele permanecerá sob prisão domiciliar, confinado exclusivamente à propriedade de sua família, adjacente à cervejaria onde sua família fez fortuna. Uma fortuna que agora será gasta para defender um homem que muitos chamam de monstro!”

Esse é um dos relatos da imprensa noticiados nos recordatórios de Arqueiro Verde nº 1 (1988), de Mike Grell e Ed Hannigan. Annie, a pequena vítima que sobreviveu a Al, tornou-se, no presente, uma mulher adulta que, a um grande custo, deu a volta por cima e hoje atua como terapeuta de casais. É ela quem vem cuidando dos traumas emocionais de Dinah Lance, que se recupera do espancamento e, possivelmente, de um estupro sofrido na minissérie Os Caçadores (1988).

São temas viscerais, para não dizer indigestos. Numa outra continuidade, era o início de uma série mensal reverenciada, com toda a aura e apelo "Vertigo", porém, ainda assim, parte do Universo DC convencional. Muito embora, claro, existisse um lembrete onipresente nas (esplêndidas) capas de Greel: “recomendado para leitores adultos”.

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A passagem abaixo grita comigo: “no meu tempo é que era bom”.

Na continuidade atual, ouvi dizer que as histórias de Joshua Williamson para Oliver Queen giram em torno de dimensões paralelas e viagens temporais...

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Eh, não tem jeito: "no meu tempo é que era bom".

🎯🎯🎯

terça-feira, 1 de abril de 2025

EU, HEREGE

Do lado de lá, o Studio Ghibli está coberto de razão. A missiva a seguir, se insurge e bota na chincha os espertalhões do “Gib Studio LLC”, que vêm usando a iconografia e estética de Hayao Miyazaki em aplicações de inteligência artificial.

Trocando em miúdos, a sensação do momento é converter artes ou fotos em versões com a assinatura estilística dos clássicos da produtora japonesa.

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STUDIO GHIBLI, INC.

27 de março de 2025

Via e-mail e carta registrada

Gib Studio LLC

755 Dotings Ln

Miami, FL 33137

Assunto: Uso não autorizado da Propriedade Intelectual do Studio Ghibli – Notificação de Cessação e Desistência

Prezados Senhores da Gib Studio LLC,

Somos os representantes legais do Studio Ghibli, Inc. (“Studio Ghibli”), o renomado estúdio de animação responsável por obras cinematográficas originais como A Viagem de Chihiro, Meu Amigo Totoro, Princesa Mononoke, entre outras. O Studio Ghibli é o proprietário exclusivo de todos os direitos de propriedade intelectual associados, incluindo estilo visual, aparência de personagens, elementos temáticos e marcas registradas.

Chegou ao nosso conhecimento que sua empresa desenvolveu e lançou publicamente um aplicativo com o nome “Gib”, descrito como “um app de compartilhamento de fotos que transforma todas as fotos em imagens no estilo Studio Ghibli”. Esse produto aparenta se basear fortemente no estilo artístico, elementos de marca e temas visuais do Studio Ghibli, além de fazer referência direta ao nosso estúdio em materiais de marketing e promoção.

Informamos que isso constitui uso não autorizado e indevido de obras protegidas por direitos autorais, trade dress (conjunto-imagem), nome comercial e marca registrada do Studio Ghibli, podendo causar confusão entre consumidores quanto à existência de endosso, patrocínio ou afiliação — elementos que não existem.

Dessa forma, exigimos que:

  1. Cessem e desistam imediatamente de todo e qualquer uso do nome Studio Ghibli, de referências ao seu estilo, personagens ou filmes em qualquer aspecto promocional, descritivo ou funcional de seu aplicativo ou empresa;
  2. Interrompam a disponibilidade e distribuição do aplicativo “Gib” em todas as plataformas, incluindo, mas não se limitando, à Apple App Store, Google Play e demais marketplaces de terceiros;
  3. Removam ou retirem todo o material de marketing, sites e conteúdo em redes sociais que façam referência ao Studio Ghibli ou utilizem elementos visuais semelhantes;
  4. Forneçam por escrito, dentro de sete (7) dias a contar da data desta carta, uma confirmação de que estão cumprindo integralmente com as exigências acima.

Caso não haja o cumprimento das demandas, não nos restará alternativa senão buscar medidas legais cabíveis, incluindo, entre outras, pedido de liminar, indenização por perdas e danos materiais e morais, além do ressarcimento de honorários advocatícios — tudo isso sem necessidade de novo aviso.

Esta notificação não constitui uma declaração completa de todos os direitos do Studio Ghibli, os quais permanecem expressamente reservados.

Atenciosamente,

Sakura & Hoshino LLP

Advogados do Studio Ghibli, Inc.

legal@sakura-hoshino.com
+1 (212) 555-7283

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Do lado de cá, atire a primeira pedra quem nunca esqueceu tudo que escreveu...

Sim, sou um herege. Perdão, Pai Dillon. Perdão, Pai Miyazaki.

UM BOM HERÓI SEMPRE MORRE

Não tem jeito. O grande momento do herói é o sacrifício final em prol de outrem. E no caso da sequência abaixo - de DC Um Milhão nº 3, de Grant Morrison e Val Semeiks -, cinco minutos atrás, o sujeito sequer estava do lado certo da história. Seja com "h" minúsculo ou "H" maiúsculo.

Falo de Farris Knight, o Starman do século 853, hedonista, traidor convicto, guardião de Solaris, o sol tirano; que ao hesitar em assassinar Ted Knight, o Starman sênior do século 20, vê uma vida de possibilidades que poderia ter sido sua[1].

Um belo clichê que sempre funciona comigo.



[1] Historinha devidamente discutida em Os Escapistas – Starman #6: Outros Tempos Passados.

quinta-feira, 20 de março de 2025

VOCÊS ME PEGARAM!

 

O trecho acima pertence ao filme Lola, de Andrew Legge. Faz exatamente um ano que pesquei essa dica com o J.M. Straczynski. Como de praxe, adicionei na minha “lista” no Romênia + e por lá continuou até agorinha, em março de 2025. O meu interesse pelo mesmo foi subitamente ressuscitado quando vi amigos compartilhando o trailer de um tal de “A Máquina do Tempo”, que acabava de ser lançado nos cinemas brasileiros.

Para minha surpresa, trata-se do mesmo Lola que continuava sendo solenemente ignorado por mim. Corrigi isso em dois tempos, e já posso bater no peito que, para variar, o título nacional é genérico e não corresponde ao que de fato é o mecanismo "Lola". Quer dizer, o dispositivo criado pelas irmãs Hanbury – e batizado em homenagem a mãe – nada tem a ver com viagens temporais[1]. Muito pelo contrário, a tecnologia criada por Thomasina (Emma Appleton) e Martha (Stefanie Martini) no final dos anos 1930, tem como particularidade o fato de ser capaz de sintonizar sinais de rádio/televisão transmitidos do futuro.

Daí, o que as simpáticas irmãs fazem com isso? O que qualquer um faria: enriquecer com jogos de loteria e bisbilhotar a produção cultural de décadas a frente. Tudo ia muito bem para as Hanbury até o fatídico dia em que Adolf Hitler aconteceu e a Inglaterra passou a amargar duras derrotas no princípio da 2ª Guerra Mundial. Imaginando que poderiam mudar o curso do conflito e salvar milhares de vidas, sob o pseudônimo de “O Anjo de Portobello”, elas passam a fornecer dicas anônimas à inteligência militar sobre ataques e operações nazistas.

Chega-se a um ponto em que as previsões começam a mudar o rumo da guerra, e com ela o próprio futuro do qual já conheciam. Está instalado um efeito borboleta que leva às favas qualquer senso de previsibilidade anterior, e junto com ele, figuras notáveis como David Bowie, Stanley Kubrick e vários outros. Sem falar que o próprio nazifascismo torna-se um animal diferente.

Lola é curtinho. Tem nem 1h20min de duração e, quem diria, dá um trato daqueles na técnica batida do found footage. É que as irmãs registram seu cotidiano e todos os momentos que levarão ao clímax da história por meio de câmeras de 16 mm, como a Bolex e a Arriflex, equipadas com lentes do período. Já as cenas que simulam cinejornais da época foram capturadas com uma câmera Newman Sinclair de 35 mm, fabricada na década de 1930, usando filme Kodak Double X.

É um lance deveras criativo, que faz horrores pela imersão e autenticidade. Fino!

💀💀💀

Após assistir ao 4º episódio de Demolidor Renascido, tive a leve impressão que o Justiceiro repetirá a façanha da 2ª temporada da série original e ditará os rumos da história. Ora bolas, já estava ditando sem sequer aparecer, não acha?

Estou falando da banda podre da polícia nova-iorquina, adotando o memento mori de Frank Castle (Jon Bernthal) como inspiração leviana para seu “servir e proteger”. O tema, por sinal, atormenta a Marvel/Disney e não é de hoje. Se por um lado, a caveira estilizada já era uma iconografia cotidiana no exército norte-americano, com a autobiografia de Chris Kyle, o Sniper Americano, fica nítido que ela virou algo maior que o personagem. Uma ideia:

"- Nosso operador de comunicações sugeriu isso antes do destacamento. Todos nós achávamos que o que o Justiceiro fazia era incrível: ele corrigia injustiças. Ele matava caras maus. Ele fazia os malfeitores temê-lo. Era exatamente isso que representávamos. Então, adotamos o símbolo dele — um crânio — e o transformamos em algo nosso, com algumas modificações. Pintamos com spray em nossos Hummers, em nossos coletes balísticos, capacetes e em todas as nossas armas. E pintamos com spray em cada prédio ou muro que pudemos. Queríamos que as pessoas soubessem: estamos aqui e vamos acabar com vocês. Era a nossa versão de guerra psicológica. Estão vendo a gente? Somos os caras que estão detonando vocês. Temam-nos. Porque nós vamos matar vocês, seus filhos da puta. Vocês são maus — nós somos piores."

Piora quando Jon Bernthal passa a ser cobrado a dar esclarecimentos sobre fotos de manifestantes na invasão do Capitólio em 6 de janeiro (de 2021), usando a logomarca. Gerry Conway, cocriador do Justiceiro, chegou a dizer sobre policiais flagrados estampando-a em viaturas e/ou equipamentos:

“- Por definição, ele é o oposto do que eles deveriam ser, sabe? Ele é alguém que está fora da lei tomando a lei em suas próprias mãos. Então, se eles estão reivindicando o Justiceiro como seu símbolo, eles estão dizendo que são foras-da-lei e que eles são criminosos e que eles são inimigos da sociedade. É realmente isso que eles querem dizer? [...] Quero negar à polícia, à milícia e aos militares a oportunidade de usar isso como um símbolo de opressão. [...] A Disney sabe que isso é radioativo. Eles vão deixá-lo desaparecer. O que para mim é uma vergonha."[2]

Entretanto, acho que ninguém foi tão contundente e literal num contraponto quanto foi a dupla Matthew Rosenberg e Szymon Kudranski em The Punisher nº 13/2018 (ou Justiceiro, Vol. 3: Rua a Rua, Quadra a Quadra):

O que estou pensando: a Marvel/Disney está com a caveira bola na mão. O que quer que será do Justiceiro daqui para frente, virá do que estão planejando nos próximos episódios de Demolidor. Creio que a sequência acima tem boas chances de ser adaptada para a telinha, porém minha inquietação é outra. Me pergunto se o velho Frank terá munição suficiente para abrir caminho nos corações & mentes de tanta gente besta, deixar para trás os cafundós de Mefisto e, por fim, ter de volta um lugar no Universo 616. 

 A conferir.

💀💀💀

Links Afiliados


[1] Se fosse para arriscar uma referência pop dessa “máquina do tempo”, eu iria de Alta Frequência.

[2] Vire e mexe, Conway é instado a se manifestar sobre a apropriação da caveira do Justiceiro. Para fins desse texto, capturei excertos de matérias na Forbes e no CBR. Por outro lado, nunca vi o Garth Ennis falando a respeito, mas imagino que em Justiceiro MAX nº 49 (O Fazedor de Viúvas), o irlandês disse tudo em uma página só.

segunda-feira, 17 de março de 2025

A CULPA É SUA!

Fazendo uma rápida consulta na loja virtual da Panini, o preço (cheio) do omnibus da fase noventista do X-Factor comandada por Peter David é de R$ 349,90. Já os dois volumes gigantescos do Hulk assinados pelo mesmo, custam estratosféricos R$ 819,80. No lado da DC, as três edições capa dura de sua Supergirl correspondem a um investimento de R$ 424,70 e o vindouro Aquaman davidiano, em seu volume de estreia, “módicos” R$ 164,90.

Com alguns descontos de praxe e/ou parcelamentos mil, sua alma tende a ficar ligeiramente mais leve. Por outro lado, espero que ela – sim, a alma – pese bastante na hora de sacar o cartão de crédito e lembrar-se dessa foto acima do Sr. David.

O registro fotográfico encabeçou o artigo de Rich Johnston no Bleeding Cool, em 14 de março de 2025. O texto repercute a saúde fragilizada do escritor de 68 anos, pego para Judas em meio à insuficiência renal, derrames e um ataque cardíaco. Vítima de um país cujo capitalismo selvagem nutre um sonho (americano) que não permite a existência de algo como o (nosso) SUS, David se viu desamparado pelo Medicaid e, como sua esposa revela, está agora abandonado à própria sorte:

“A versão curta é que estamos nadando em dívidas médicas devido à rejeição de Peter para o Medicaid – o que era uma das poucas coisas que estava dando certo. Como muitos de vocês sabem, o seguro só paga até certo ponto. Uma vez que se tenha usado isso, depende-se dos serviços sociais para permitir que se viva sem ficar sem teto e sem dinheiro. É isso que o Medicaid tem feito nos últimos dois anos.”

O relato na íntegra de Kathleen David causa ainda mais desalento, e serve de apelo aos fãs numa campanha de financiamento coletivo para arrecadar US$ 150 mil. A julgar pelos mais de US$ 80 mil já doados, o prognóstico é de que nos próximos dias, felizmente, a meta seja atingida.

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Não que isso sirva para aliviar sua consciência. Ela deveria, sim, pesar e muito. Afinal, quando se paga por aqueles gibis lá em cima, por uma particularidade arcaica e predatória dos contratos work for hire (trabalho sob encomenda), os autores Marvel/DC não recebem royalties nas vendas de reimpressões realizadas fora dos Estados Unidos.

Isso ocorre por dois motivos: 1) as duas editoras majors vendem os direitos internacionais para outras empresas (como a Panini no Brasil), e essas republicações, obviamente, não fazem parte da tiragem original do quadrinho nos EUA; e 2) no mais das vezes, os acordos não incluem pagamentos sobre republicações internacionais.

Desse modo, os escritores e desenhistas não recebem percentuais sobre esses novos contratos, a menos que seja algo especificamente negociado. A exemplo do feito conseguido por Neil Gaiman em Sandman que, embora nunca revelado os termos exatos, tem-se como certo tanto o recebimento dele de royalties internacionais pelas vendas, quanto de dividendos consideráveis em torno de adaptações e merchandising. Insight parecido teve Rob Liefeld que, enquanto esteve na crista da onda durante a febre mutante dos anos noventa, conseguiu emplacar direitos sob o copyright de algumas criações em Novos Mutantes/X-Force: “Quando Deadpool explodiu no Fortnite, isso foi realmente bom para a educação privada dos meus filhos? Sim. Sim, foi. [...] Tenho fluxos de receita do Deadpool que existem desde 1991.”[1]

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Como David não conta mais com vigor para fazer aparições em eventos e a cognição deve estar agora em frangalhos após múltiplos AVCs, não consigo vê-lo produzindo novos roteiros para o seu empregador mais corriqueiro. Sem qualquer criação indie digna de nota, construindo uma carreira profícua, porém, majoritariamente atrelada a medalhões corporativos, é difícil crer que haverá uma reviravolta. Do mesmo modo que nunca houve para o grosso dos notáveis que criaram sem limites e, em algum momento futuro, esbarraram numa limitante realidade.[2]

O problema, entretanto, é que o leitor/consumidor não costuma dar bola para esses dilemas paradigmáticos da criação artística. Chega a ser ininteligível quando, por exemplo, a mão que acaricia a obra de Alan Moore, costuma ser a mesma que apedreja a animosidade do autor com a indústria do entretenimento e sua fome insaciável de buyout.

Reformulando para o espírito desse texto:

A mão que compra o omnibus do Hulk, é a mesma que faz vista grossa com o Peter David virando estatística na assistência social de Donald Trump.

Há que se botar a boca no trombone, mas mais importante que a(s) voz(es) solitária(s) do(s) autor(es), cabe ao leitor das “republicações internacionais” a iniciativa inédita de não pactuar mais com esse estado de coisas. Por mais quixotesco que isso possa parecer.

Não compre e veja a mágica acontecer.



[1] Especula-se que até 2024, Liefeld tenha lucrado entre US$ 10 milhões e US$ 20 milhões com sua cota-parte em Deadpool.

[2] Em Pulp, Ed Brubaker e Sean Phillips ilustraram um worst case scenario da experiência frustrante do primeiro em O Soldado Invernal, enredando uma trama onde um escritor de folhetim descobre que seu personagem não lhe pertence e não tem mais saúde ou finanças para seguir em frente. De repente, o ficcional Max Winters parece muito o verídico Peter David.