Como o próprio título sugere, Miscelânea, é um espaço dedicado a registros sobre assuntos variados, extras do último podcast, comentários sobre filmes, seriados, aquisições e leituras de novos ou velhos quadrinhos, enfim, de tudo, um pouco. Preparados?

***

Em nove anos de exibição, entre oscilações históricas de enredo, crise(s) nos bastidores, drásticas diminuições nos números de audiência e, ainda assim, a série televisiva de The Walking Dead segue com uma fanbase fiel e, acima de tudo, entre as mais lucrativas da televisão a cabo norte-americana. A despeito das ilusões vendidas pelo seriado, Andrew Lincoln é um oásis de credibilidade. Ou ao menos era – ou ainda será? Já chego nisso.

E é bem verdade que o quadrinho de Robert Kirkman, beirando sua ducentésima edição, também tem lá seus próprios estigmas, muitos dos quais orbitam a máxima de que “TWD só era legal na época da prisão“. Algo que, por sinal, discordo em nível molecular. O legal de TWD é que Kirkman nunca foi de olhar para trás; a narrativa dele se guia para frente e vai ao encontro [e de encontro] com as proposições postas, nunca pretéritas – tanto é que o roteiro não usa de recursividades como flashbacks ou retcons. Logo, quando Rick disse a Carl que não olhasse para trás, valia o mesmo para o leitor.

Nem acho que o pecado do TWD da AMC sejam as discrepâncias em relação aos marcos da HQ, tampouco o aludido uso de analepses, na verdade, acredito que carece à produção executiva da mesma objetividade que Kirkman pontua seus arcos dramáticos – e aqui teço elogios ao autor-criador. Um exemplo clássico disso foi a adaptação de Guerra Total, uma saga de dezoito edições [ou três encadernados: Vols. 19, 20 e 21], em três temporadas com quarenta e oito episódios. O excesso foi tamanho que, ao final de três anos da peleja Rick vs. Negan, estava bastante claro que não eram só os personagens que estavam esgotados àquela altura, a ciranda emocional foi mais além, atingindo pilares do casting e toda a benevolência do público.

Já renovada para um próximo ciclo e sob a promessa de recomeço, não tarda muito e começam a circular os rumores de duas baixas cataclísmicas: Lincoln e Lauren Cohan (Maggie Greene). Algo que se confirma pouco tempo depois e, no que se refere à despedida do primeiro, põe em xeque o princípio fundamental de Kirkman: “A ideia por trás de The Walking Dead é permanecer com o personagem, neste caso, Rick Grimes, até onde for humanamente possível. Quero que The Walking Dead seja uma crônica de anos da vida de Rick. Nunca teremos curiosidade de saber o que acontecerá com Rick, iremos ver o que acontece“.

O nono ano tem início e já se sabe que algo ocorrerá com Rick, já que Lincoln havia batido o martelo e deixaria oficialmente o programa no quinto episódio; Maggie, em algum momento mais a frente. O gap de 15 meses entre os eventos do season finale passado e a nova première, aliado ao frescor da nova showrunner, Angela Kang, vinha entregando um cenário de relativa paz entre Alexandria, Hilltop, Reino, Oceanside e Os Salvadores; esses últimos, liderados a contragosto por Daryl, enquanto Negan cumpre os primeiros anos de sua prisão perpétua.

Um Negan vivo era um acinte a memória de todos que tombaram frente à “Lucille” e, principalmente, aos que sobreviveram para chorá-los e enterrá-los. O que fazia dessa relativa paz, na realidade, um armistício, uma cessação temporária das hostilidades aos Salvadores; e como se não bastasse, sem nada receber em troca, o lado vencedor tinha que provê-los de suprimentos, já que o plantio de milho, a única moeda de troca deles, estava estagnado e inviabilizava o escambo de etanol. Porém, ainda que mal vistos, o fato de não serem vistos, ajudava na manutenção do status quo; tudo muda quando uma ponte, que conectava os cinco grupos, vem a baixo e, para repará-la, Rick decide reunir trabalhadores de todas as comunidades.

Então, é nesse cenário de ressentimentos, de desconfiança velada entre amigos e rivais, que todas as boas intenções de Rick vão para o inferno. Daí, quando todos decidem abandonar a obra, Rick tanta salvar o que já foi feito, atraindo a atenção de uma horda que passaria por cima e, fatalmente, cederia ante a fragilidade da estrutura. No percurso, ele sofre uma queda do cavalo e cai sobre uma viga, sendo empalado no mesmo lugar do ferimento à bala do início da série. What Comes After [S09E05] começa quando ele se livra do metal, volta à sela e passa a cavalgar há poucos metros de centenas de zumbis. No trajeto, a hemorragia não extravaza apenas litros de sangue de Rick, ela o obriga a lidar com velhos fantasmas que, quem diria, o ajudam a não perder os sentidos.

*** SPOILER: O que aconteceu com Rick ***

A narrativa leva sua audiência a crer que está diante dos últimos passos de Rick na série; os demais personagens têm certeza disso, pois, no ângulo de visão em que estavam, o viram ir pelos ares junto com a ponte. A pegadinha é que Jadis, em fuga, o encontra semivivo, às margens do rio, e negocia o resgate dos dois junto a um grupo desconhecido que ela, aparentemente, mantinha barganhas desde os tempos do Lixão. A extração se dá via helicóptero. Destino? Incerto.

A outra pegadinha é que as férias que Lincoln forçou nos bastidores se transformaram numa trilogia de filmes com o personagem e, guardadas as proporções, lembram a transferência de Morgan para Fear the Walking Dead; ou até mesmo a série literária protagonizada por Philip Blake, o Governador. Mas como disse no tuíte acima, não acreditava que essa morte prematura de Rick fosse real e, vamos combinar, quase acertei. Fato é que não existe essa de descansar a imagem para Lincoln; o ator ficará marcado para sempre como o rosto do Xerife Grimes e tudo o que ele pode fazer é brincar com as possibilidades do papel.

Acho o caso de Lincoln bastante similar ao de William Petersen, o eterno Gil Grissom de CSI; que também abandonou o protagonismo da série após nove temporadas. Só que, ao deixar o hit procedural da CBS, Petersen teve pouquíssimas menções no IMDb e, claro, seria leviano de minha parte afirma categoricamente que isso se deve à imagem atrelada ao Perito Criminal, por outro lado, é impossível não imaginar que esse ostracismo velado não seja reflexo disso.

Em Tempo…

O episódio adiantou uma desforra ou, vá lá, um encerramento que só aconteceu dia desses no quadrinhos [TWD #174], qual seja: o esperado acerto de contas entre Maggie e Negan – algo que reforça o perfil da nova showrunner, de não dourar demais a pílula, a exemplo do seu predecessor.

***

Doravante, o que será da série sem o norte de Rick Grimes? Já se sabe que a história dará maior destaque as personagens femininas e o – já confirmado – salto de 6 anos servirá como trunfo adicional para que Judith Grimes assuma as premissas que seriam de seu irmão, não tivesse a produção cometido aquela sandice. Pelo pouco que se viu da atriz Cailey Fleming [de 11 anos], a atitude e os acessórios dos parentes já se fazem presentes.

***

Julgava que What Comes After seria meu último episódio de TWD. Ledo engano…

…era só o empurrãozinho que precisava para seguir assistindo.

***

Links afiliados: